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Viagens do CRAS itinerante no Amazonas

24-10-2007 11:16

O barco sai do cais de Coari, Amazonas, bem cedo, antes das 7h. Não há parentes para despedir, tampouco para dar o último adeus. E todos sabem que os 22 tripulantes vão ficar duas semanas fora da cidade. Numa média de 20 a 30km/h, a embarcação, primeiro, invade as águas negras do lago Coari e, depois, o barrento rio Solimões. É o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) itinerante levando serviços socioassistenciais a 1/3 da população coariense: os mais de 27 mil ribeirinhos.

Bruno Spada/MDS
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Técnica da Assistência Social “driblando” a água para chegar aos ribeirinhos
A viagem começa sonolenta e pode, dependendo do local a ser visitado, demorar até 24h. Um grupo de jovens brinca no teclado, outro já arma a rede e tira um cochilo. No térreo, as duas cozinheiras já preparam o almoço. Tem ainda quem se recolha num dos oito quartos com beliche e ar-condicionado. De um lado, floresta. De outro, idem. Para frente água e para trás também. Eles, tripulação e o CRAS itinerante, adentram a selva amazônica pelo único caminho possível: a água.

O tempo está bom. Nem seca, nem cheia. De novembro a março, no entanto, as chuvas interrompem e o acesso aos ribeirinhos fica comprometido. Isso porque a viagem se dá principalmente pelo rio Solimões, mas para ancorar à margem de algumas comunidades é preciso navegar por igarapés e riachos – em época de seca já sem água. “Metereologia (clima) e geografia (distâncias) orientam nosso planejamento de viagem”, esclarece a coordenadora do CRAS itinerante, Elaíse Castro Figueira.

Ainda assim, a Secretaria Municipal de Assistência Social, responsável pelo CRAS itinerante, tem bem traçada a estratégia das viagens. De mês em mês, o barco vai a um dos braços do rio (veja a imagem ao lado): Baixo Solimões, Médio Solimões, Alto Solimões, Rio Copeá, Codajás-Mirim, Rio Piorini, Lado de Coari e Lago Mamiá. Aí, completa a viagem de ida e, na volta, pára um dia em cada comunidade pólo (são 36 de um total de 205) até que retorna para o município de Coari.


Bruno Spada/MDS
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O CRAS itinerante ancora: há atendimento em terra e no barco
A bordo muitos mantimentos e combustíveis. O gasto de uma viagem dessas não sai por menos que R$ 12 mil. São três mil litros de diesel, para o motor do barco, e 350 litros de gasolina, para o motor de energia. Na lista de compras, aparecem 150 quilos de frango, 70 de carne e 40 de farinha amarela, por exemplo. Tudo para manter a disposição e a alegria dos técnicos que vão atender os ribeirinhos.

“A equipe adora fazer esse serviço porque a comunidade ribeirinha recebe todos muito bem”, afirma a gerente dos Programas Sociais de Atenção Básica de Coari, Maria Rejane de Aquino. Ela acrescenta: “As pessoas procuram o barco porque entendem que lá estarão usufruindo o direito de ser cidadão”. Entre os serviços ofertados pelo CRAS itinerante, estão os acompanhamentos de programas de transferência de renda, as atividades socioeducativas e a documentação.


Gás e Petróleo
Após 1h30 de viagem, o CRAS Itinerante avista uma comunidade. De longe, ao menos, parece a primeira localidade de ribeirinhos. Chegando mais próximo, porém, fica nítido que o local em nada se relaciona com esta população tradicional. O terminal de gás e petróleo da Petrobras abriga os imensos navios cargueiros que levam os combustíveis fósseis para refinamento na capital Manaus, distante 433 quilômetros pelo rio Solimões.

Prefeitura de Coari (AM)
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O barrento Solimões e o negro lago Coari compõem a paisagem da cidade amazônica do gás
A base de exploração, conhecida como província do Ucuru, está a quilômetros para o interior da floresta. De lá, o petróleo segue tubulado para o terminal. Em breve, será inaugurado o Gasoduto Coari-Manaus, que tem capacidade de transportar 10,5 milhões de metros cúbicos. Estima-se que há reserva ainda para 30 anos. Os royalties – compensação financeira da Petrobras pela exploração de gás e petróleo – chegaram, de janeiro a agosto de 2007, a R$ 25,3 milhões, segundo a Agência Nacional de Petróleo (ANP).

Devido à presença da Petrobras, Coari tem tido uma migração intensa. Em 2001, 67 mil pessoas viviam na cidade, contra as mais de 84 mil registrados em 2005. “O movimento acelerado que o município passa traz ônus e bônus”, explica a secretária Municipal de Assistência Social, Joelma Gomes de Aguiar. “Temos buscado, através dos CRAS (o urbano e o itinerante), refletir sobre esse movimento com as famílias”.

CRAS itinerante
Para a secretária, o CRAS itinerante se tornou um valioso instrumento de combate ao êxodo rural. “Nossa idéia é manter as pessoas na área rural mesmo”, comenta, referindo-se aos ribeirinhos. “Mas não manter por manter. Não para deixá-los presos em condições ruins. Não!”. Joelma Gomes continua: “É mantê-los porque optaram por viver lá”

Bruno Spada/MDS
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O CRAS itinerante volta para Coari: daqui quinze dias tem mais viagens
Assim, o desafio é encontrar formas de levar direitos – socioassistenciais, por exemplo – até os ribeirinhos. A dirigente diz que o CRAS itinerante tem o papel de fortalecer vínculos comunitários e familiares e de resgatar os aspectos culturais destas comunidades. “É preciso garantir que a criança tome banho no rio, suba numa árvore e coma uma fruta. E também que tenha direito a educação, a assistência social e a brincar.”

Para isso, as atividades giram em torno da família. “Entendemos que a família é o centro de tudo e a responsável em proteger tanto nossas crianças quanto nossos idosos e adultos de inúmeras demandas sociais”, acredita a secretária Joelma Gomes.

O barco volta a Coari. Foram duas semanas longe de casa. A tripulação está cansada, mas preparada para, daqui a quinze dias, viajar novamente. Por enquanto, há apenas um CRAS itinerante. O plano é que mais três sejam criados para atender as 205 comunidades ribeirinhas coarienses numa periodicidade mais curta.

No Brasil, estão em funcionamento 3.279 CRAS, todos equipamentos públicos co-financiados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).


Vítor Corrêa* – (61) 3433-1054
Da equipe Fome Zero

* O repórter viajou até Coari (AM) para escrever esta matéria especial.