Programa Globo Rural fala de programas sociais no meio rural
09-01-2007 12:05
Em 2006, um dos principais temas das campanhas eleitorais foi o Bolsa-família. Esse e outros programas públicos de combate à pobreza alimentaram muita discussão, muita polêmica. Para saber como funcionam esses programas no meio rural e qual o impacto deles no dia-a-dia das famílias dos pequenos agricultores, nós voltamos à região de Irará, no sertão da Bahia.
Tem gente querendo comprar, tem gente querendo vender. Quando chega o sábado, o pessoal de Irará já sabe que é dia de feira. E tem de tudo: alimento, roupa, ferramenta, porco, cabra, galinha. Destaque para as farinhas e derivados de mandioca.
A maior parte do povo da feira vive da roça em Irará e na região. A agricultora Maria Angélica dos Santos, conhecida por aqui como Gel, monta sua barraca há 15 anos.
"Eu vendo feijão de corda, andu, mangalô, fava, maxixe, maracujá e outras coisas que aparecerem na roça. Eu que produzo tudo", conta Gel.
Nós fomos conhecer o sítio da Gel, que fica perto da cidade. Aqui, entre outros produtos, ela e o marido, senhor Adílson da Silva, se dedicam principalmente ao cultivo da mandioca. Tudo apertadinho em um hectare de terra.
"Onde der a gente planta tudo que puder", diz ela. O marido completa: "Tem que aproveitar o máximo, né?".
Globo Rural: Vocês têm quantos filhos?
Gel: Seis filhos.
Globo Rural: Estão todos aqui com vocês?
Gel: Só tem quatro... dois já saíram.
Globo Rural: Que tipo de dificuldade vocês chegaram a viver na família? Faltava tudo?
Seu Adílson: Faltava dinheiro, faltava tudo.
Gel: De chegar em casa e ter que dar o que tinha para os filhos e ficar sem comida.
Globo Rural: Você chegou a ficar sem comer para ter o que dar aos meninos?
Gel confirma, mas ressalta: "Hoje em dia jamais acontece isso".
A vida desses agricultores começou a mudar nos últimos anos. Uma novidade é que, pela primeira vez, o casal conseguiu crédito para investir no sítio. Dinheiro do Pronaf - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar.
Foram R$ 1.440,00 com prazo para pagamento de 1 ano e meio. Se pagar em dia, o agricultor ganha desconto de 25%. O dinheiro vai ser usado para melhorar a criação de porcos, que hoje não passa de dois leitões.
Globo Rural: O que está previsto exatamente no financiamento?
Gel:Dá para comprar 4 leitões, a ração para alimentar os animais e melhorar o estado em que está.
O empréstimo também prevê a compra de um jegue. "Eu necessito de um jegue para carregar água. O meu jegue foi mordido por uma cobra e morreu. Aí a gente precisa ter um jegue.", diz ela.
Nos últimos anos, centenas de milhares de famílias como a da Gel passaram a ter acesso ao crédito do Pronaf. Nesta safra, foram 1,793 milhões de contratos. E o volume de dinheiro emprestado para os pequenos agricultores chegou a R$ 7,5 bi.
Segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Irará, a redução da burocracia ajudou: "Antes, quem não tinha documentação da terra não tomava o empréstimo. Hoje, o sindicato já emite uma declaração onde o produtor ou o banco já aceitam essa declaração para ele ter acesso a esse financiamento. Simplificou", diz Josafá Ferreira, diretor do Sindicato.
Outra fonte de renda fundamental para as famílias pobres do campo é a aposentadoria rural. No Brasil são 5,2 milhões de aposentados, que este ano receberam mais de R$ 20 bi. Gente como o senhor Benjamin dos Santos. Com R$ 350,00 por mês, ele sustenta muita gente.
"Tenho uma filha e quatro netos dentro de casa. Comigo, seis. A gente tem que comprar farinha, açúcar, café, um pedacinho de carne", diz Benjamin.
E de todos os programas públicos, o que mais cresceu nos últimos anos foi o Bolsa Família. Atualmente, 11,1 milhões de família recebem o benefício no Brasil. Só em Irará, são 3.982.
Globo Rural:Dona Maria, a senhora tem o cartão do Bolsa Família?
Dona Maria: Tenho.
Globo Rural: Quanto é que sai por mês?
Dona Maria: R$ 95,00.
Globo Rural: A senhora recebe quanto?
Dona Maria: R$65,00... R$70,00.
Para receber o dinheiro todo mês, as famílias têm que cumprir algumas regras: criança em idade escolar deve freqüentar as aulas. Gestante, mamãe e bebê, precisam estar em dia com o calendário de saúde, que inclui vacinação e acompanhamento pré-natal.
O valor mensal varia de R$ 15,00 a R$ 95,00, dependendo da renda familiar e do número de crianças na escola. O cadastramento e a administração do Bolsa Família ficam a cargo de um conselho municipal. Em Irará, o gestor é um funcionário da prefeitura, Emerson Pinho.
Ele explica que o critério de inclusão no programa é a renda por membro da casa. Têm direito ao benefício todas as famílias com rendimento mensal de até R$ 120,00 por pessoa. Exemplo: se uma família ganha R$400,00 por mês e tem 4 pessoas, a renda por pessoa é de R$ 100,00. Ou seja, ela tem direito ao benefício.
Globo Rural: Quais são as dificuldades que vocês têm no dia-a-dia para lidar com o cadastro de tanta gente?
Emerson: Justamente isso. As composições das famílias vão mudando, novas crianças nascem, pessoas que não trabalhavam quando fizeram o cadastro e depois passaram a trabalhar, gente que se aposenta. Então a renda vai sempre variando, mas a gente está sempre atualizando os dados.
Gerir o cadastro das famílias é, de fato, um dos maiores problemas de um programa tão grande. Ao longo dos anos, surgiram denúncias sobre benefícios irregulares, tem gente querendo entrar, gente que deveria sair.
Em Irará, as pessoas retiram o dinheiro na casa lotérica, onde reencontramos a Gel.
Globo Rural: Quanto é que você recebe aqui por mês?
Gel: 80 reais. Conta muito no orçamento da família.
Com o dinheiro do Bolsa Família, Gel e o marido aumentaram a renda média de R$ 220,00 para R$ 300,00 por mês.
"Eu quero uma garrafa de vinagre, meio quilo de carne e uma calabresa", pede Gel, na venda.
Com milhares de clientes gastando mais no comércio, o dono da mercearia está satisfeito: "O movimento está numa crescente. De três anos pra cá, ele cresceu aproximadamente 40%".
Com mais movimento, Edno também precisou de mais empregados. Por isso, contratou Ramón e Manoel, ambos com carteira assinada.
As vendas também cresceram nas lojas de material de construção, nas farmácia, nas lojas de roupas. Ao todo, os benefícios do Bolsa Família injetam por mês R$ 288.000,00 na economia de Irará.
O novo visual da roça inclui cercas reformadas, paredes pintadas e telhado novo; mais motos nas estradas e muita gente com telefone celular.
Só que, com o aumento do consumo, as famílias também passaram a produzir mais lixo. Impossível não reparar na quantidade de latas, embalagens, sacos plásticos. E por quanto tempo as pessoas vão precisar do Bolsa Família?
Além de receber auxílio em dinheiro, agricultoras de Irará passaram a fazer cursos de capacitação profissional. A iniciativa é uma parceria da prefeitura e do CRAS, o Centro de Referência da Assistência Social, do governo federal.
Uma das aulas ensina a fazer a bijuteria, como explica a coordenadora Edith de Assis: "Nós pretendemos fazer geração de renda para essa famílias vulneráveis. Essa geração de renda vai fazer com que ele saia da vulnerabilidade e fazer com que a família não seja dependente de repasse federal e realmente venha a se capacitar para se auto-sustentar".
Esse tipo de curso ocorre em 1.621 municípios brasileiros. Além de artesanatos, tem aula sobre horticultura, produção de doces, informática. A idéia é que o investimento em educação e em atividades produtivas permita que, no futuro, famílias como essas estejam preparadas para superar a pobreza.
Enquanto isso, na prática e no presente, Gel comemora o aumento de renda: "Todo mundo fica bem, né? Fica de bom humor, ninguém reclama de nada, aí é muito bom".
Globo Rural: E o que é que não tinha e que começou a ter em casa?
Gel: Macarrão, por exemplo. A gente faz macarrão até de dia de semana! Galinha assada, feijão de corda, feijão tropeiro, arroz de forno... antes não tinha esse negócio".
Gel e o marido nunca receberam formação profissional, não tiveram chance de estudar e mal sabem ler. Para Geílson, de 15 anos, e para as três irmãs, o dinheiro extra também ajuda na compra do material escolar.
"Tinha vez que faltava lápis, borracha, caneta. Tinha vez que faltava até caderno... agora melhorou", diz o garoto.
"Eu faço o possível pra todo mundo estudar, se formar, mais lá pra frente fazer uma faculdade para poder ganhar mais e desenvolver melhor. Eu quero fazer o possível pra dar a ele tudo que eu não tive. É o meu maior sonho", diz a mãe.
Se Geílson e as irmãs continuarem estudando, se conseguirem uma boa formação profissional, no futuro provavelmente não vão precisar do dinheiro de programas como o Bolsa Família.
Fonte: Globo Rural
http://globoruraltv.globo.com/

