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Professores de Campo Grande (MS) mobilizados pela educação alimentar

03-10-2006 10:23

Dados do Ministério da Saúde* mostram que cerca de 15,6% dos 18 milhões de alunos de escolas públicas de 7 a 10 anos são obesos. Para reduzir este percentual, é preciso que o consumo de alimentos seja disciplinado ainda no período da alfabetização escolar. É por isso que, desde 2005, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) distribui gratuitamente cartilhas e gibis referentes à educação alimentar a 140 mil colégios de 1ª a 4ª série do Brasil.

Na escola municipal professor Licurgo de Oliveira Bastos, em Campo Grande (MS), professores têm usado histórias em quadrinhos da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo sobre educação alimentar, no dia-a-dia das aulas. Ana Elisa Ferreira, professora da 4ª série, diz que o currículo escolar da cidade já prevê ensinamentos sobre alimentação. Segundo ela, o material enviado pelo MDS chega para aprofundar esta dinâmica. “As crianças ficam bastante estimuladas, pois o aprendizado acontece com os personagens de Monteiro Lobato, que elas conhecem da televisão”, afirma.

Ana Elisa explica como a educação alimentar foi inserida nas aulas das disciplinas da grade regular: “Desenvolvemos português, com a interpretação dos textos dos gibis; ciências, com informações sobre origem dos vegetais; e cálculo, com receitas de pratos”, informa. O método de outra professora da escola, Maria de Fátima Pires, da 2ª série, é mais prático. “Pedi para os alunos trazerem frutas. Na sala de aula, fizemos uma salada com elas. Muitas crianças nunca tinham comido uma”, lembra.

Luis Antônio de Oliveira, pai de uma das alunas da 1ª série, atesta que os hábitos alimentares da menina começaram a mudar. “Ela me pedia muitos alimentos de fritura. Hoje, come com base nos ensinamentos da escola”, garante. Ele fala da importância da educação alimentar já na fase de alfabetização: “Nessa idade, tudo que aparece é novidade. Minha filha passou a comer mais verduras e legumes e está mais disposta”. De acordo com Luis, a menina pede para que no prato do dia-a-dia tenha beterraba e cenoura – hortaliças preferidas por ela.

A coordenadora de Educação Alimentar e Nutricional do MDS, Sabrina Ionata de Oliveira, afirma que o hábito alimentar é definido ainda na fase infantil. Por isso, o trabalho com quadrinhos ocorre com alunos da 1ª a 4ª série. “Se as crianças são expostas a informações deste tipo, a probabilidade de que mais tarde elas tenham uma alimentação saudável é bem maior”, comenta a dirigente.

Os problemas de saúde derivados da má alimentação são muitos. O principal deles é a obesidade, como conta a endocrinologista e pediatra Tatiana Coimbra. “A conseqüência aparece na infância, por meio da baixa auto-estima e de complicações ortopédicas pelo excesso de peso, e na fase adulta, com o colesterol alto, principal causa do infarto, e a pressão alta”, explica a profissional do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Para ela, a família e a escola podem evitar que tais dificuldades médicas apareçam. “Os pais precisam parar de comprar produtos altamente calóricos e os professores precisam estimular os alunos a comerem frutas e legumes”, diz Tatiana Coimbra. A médica aprova a distribuição de gibis para educação alimentar. “Gostei muito desse material. Leio frequentemente para meus filhos”, explicou.

Bruno Spada / MDS
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Cartilhas do Sítio distribuídas pelo MDS
Colorido da alimentação
Em 2006, o MDS produziu, em parceria com a Editora Globo, dois modelos diferentes de gibis da turma do Sítio do Pica-pau Amarelo: “O que é obesidade?” e “Alimentação Saudável”. Neste último, há relação entre cores e alimentação saudável. Num determinado momento, a personagem dona Benta diz à boneca Emília: “Assim como as cores enchem de vida o seu desenho, os alimentos enchem de saúde o nosso corpo!”. A história segue se referindo as cores que tem nomes de frutas, como verde-limão e abóbora.

A supervisora da escola de Campo Grande, Claudeci de Paula Almeida, avalia que histórias como esta despertam o interesse dos alunos. “Faz com que a criança cobre do pai o que quer comer. Ela passa a pedir o colorido na alimentação, que fica mais em conta que o arroz com carne de todo dia”, considera.

Para ela, a atenção do aluno deve ser disputada com materiais visualmente chamativos. “A mídia divulga produtos industrializados, mas com personagens de televisão fica mais fácil aproximar a alimentação saudável da rotina delas”, conta. Outro aspecto que contribui é a merenda escolar. “O aprendizado dos gibis pode ser visto na merenda, onde o cardápio é variado. Servimos cural de milho com bolacha de água e sal, farofa com banana”, ressalta a supervisora Claudeci.

Educação alimentar nos próximos anos
Além da distribuição do material para crianças, o MDS entrega também cadernos de educação alimentar a professores espalhados pelas cinco regiões do Brasil. Somente este ano, foram mais de 700 mil exemplares. Para avaliar o impacto das histórias em quadrinhos nas escolas, está sendo desenvolvido um estudo pela Universidade de Campinas (Unicamp), que será divulgado até o fim do ano.

Por isso, a coordenadora do Ministério do Desenvolvimento Social, Sabrina Ionata, ainda não sabe informar quais são os planos do programa de educação alimentar para o futuro. “Com a avaliação, vamos pensar se estamos no caminho certo e se devemos partir para outras atividades como a capacitação de professores ou a extensão do material a outras séries”, explica a dirigente.

Fome e educação alimentar
Levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) apontou que a pobreza tem diminuído no Brasil. A população com renda per capita de R$ 121 por mês é de 22,77%, contra 35,16% registrada há 14 anos. Para estas pessoas e também para as demais, devem existir políticas públicas de educação alimentar. A análise é da coordenadora Sabrina Ionata.

Ela lembra que a educação alimentar foi usada há 50 anos para evitar a obesidade dos ricos e que de 1970 até início de 1990 tal política inexistiu. De uns anos pra cá, com o Fome Zero, no entanto, a educação alimentar voltou a ter papel de destaque. “É preciso trabalhar com todas as faixas de renda, tanto para prevenir doenças e a obesidade, quanto para evitar o desperdício de alimento”, diz. “A educação alimentar não é para rico ou para pobre. É para todos”.

* Segundo o “Guia Alimentar para a População Brasileira”, de 2005, foi realizado um estudo na região Sudeste que apontou tal porcentagem.


Vítor Corrêa – (61) 3433-1056
Da equipe Fome Zero