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"Temos que investir mais em redes"

29-07-2005 12:41

Advogado, Rubens Naves é daquelas pessoas que sempre tiveram um olhar voltado para o social. Há 11 anos ele dirige voluntariamente uma ONG, a Fundação Abrinq, que ganha espaço no movimento de responsabilidade social sobretudo pelas parcerias que sabe fazer bem. Naves, há tanto tempo nesta estrada, tem uma ajuda fundamental a dar para os empresários que ainda estão começando a trilhá-la. Sua experiência mostrou que é preciso investir mais na formação de redes e cutucar as grandes empresas para que não promovam só ações solitárias. Na opinião dele, “Só vamos conseguir uma transformação com parcerias com o poder público”.

 

O Globo: Como o senhor está vendo o momento atual do movimento de responsabilidade social no país?

Rubens Naves: Já há a compreensão de que a responsabilidade social é uma ferramenta muito adequada, não só para intervir na realidade social, mas também como uma forma de gestão. Mas também está havendo um polimento dos investimentos. A última pesquisa do Ipea mostra que tivemos uma leve redução dos investimentos no Sudeste, que é a região mais rica do país. O que eu vejo é que nós estamos sentindo um recrudescimento de iniciativas isoladas, e acho isso muito perigoso. O que estou querendo dizer? Há uma iniciativa de as empresas terem seus projetos de maneira isolada. Isto é a responsabilidade social predominantemente como uma questão de marketing social e não como uma consciência de transformação. É um movimento ainda muito tênue, mas já é preocupante. Outra questão: há áreas onde o empresariado tem resistência para investir, como a área do combate à corrupção e a questão do meio ambiente. Só vamos conseguir uma transformação com ações, com projetos que tenham resultados já comprovados. E também com parcerias com o poder público.

 

O que o senhor acha da formação de redes?

Rubens Naves: Não é fácil. Na Abrinq, por exemplo, temos o programa Presidente Amigo da Criança: por ocasião da eleição, o próprio Lula se comprometeu a alcançar as metas deste programa nas áreas da saúde e segurança. São 30 entidades dialogando com o Governo, mas das metas mensuráveis até 2010 apenas três serão cumpridas. Então a Rede tomou recentemente a decisão de cobrar firmemente do governo. Este é o nosso caminho. Sinto que o Ethos vai ter que partir para articular medidas, aprofundar mais. Se não fizer isto, corre o risco de desestímulo e do descrédito.

 

Por que a Fundação Abrinq não aceita colaboração do poder público?

Rubens Naves: É uma estratégia para atrair mais o empresariado e não ter facilitadores para não entrar na busca dos recursos públicos. Decidimos trabalhar com o empresariado e com universitários. Temos um corpo de voluntários muito grande, no nosso conselho consultivo, com especialistas da criança e adolescente em vários setores, pessoas que ajudaram a escrever o ECA e são nossos colaboradores voluntários.

 

É fácil convocar voluntários?

Rubens Naves: O mais importante é capacitá-los, fazer com que eles se sintam confortáveis, acreditando que seu trabalho é útil. A Abrinq faz a mediação entre a entidade que precisa do voluntário e o voluntário. O brasileiro é muito generoso. Mas há outros dois ganchos para atrair voluntários: a militância e a identificação com a causa.

 

O senhor acha que os empresários preenchem um vazio deixado pelo Estado ao tomarem atitudes socialmente responsáveis?

Rubens Naves: Temos um modelo de Estado que pressupõe esta colaboração dos empresários. Isso porque temos uma crise do Estado forte causada pelo neoliberalismo. E porque a nossa constituição introduziu a importância da função social da propriedade privada. Acho que este papel da sociedade civil e do empresariado é essencial.

 

Muitos empresários se queixam do fato de pagarem altos impostos.

Rubens Naves: O Estado tem que intervir na questão da desigualdade para promover a inclusão social com saneamento básico. O empresário pode e deve colaborar, mas esse papel estratégico tem que ser do Estado. Os últimos movimentos contra o aumento de taxas mostraram, no entanto, que estamos próximos de um limite de saturação. O Estado tem que caminhar para buscar eficiência com recursos que lhe são atribuídos hoje, não há como majorar. Se o Estado não der conta dessa tarefa — e aí a importância de que a responsabilidade social vire uma estratégia — viraremos vítimas da violência. O papel da responsabilidade social permeia desde atribuir fundos de uma forma transparente até fazer sua própria parte.

 

O que o senhor sugere que seja feito?

Rubens Naves: É importante fazer com que as três esferas do governo funcionem. Sobretudo os prefeitos. Para os prefeitos aderirem nós da Abrinq, por exemplo, estamos fazendo parcerias com governadores, já temos uns seis. Na Bahia temos o projeto Crer para ler, em parceria com a Natura, que já virou política pública, por exemplo, porque mais de 30 municípios aderiram a ele.

 

Como se cria uma rede?

Rubens Naves: Você cria uma rede por meio de uma articulação política e ela pode ser mais ou menos complexa.

 

Com tanta gente tomando atitudes pró-ativas, por que o senhor acha que a sensação é de que o cenário social não muda?

Rubens Naves: Porque as cidades cresceram muito, tivemos a crise do modelo econômico. A questão social tem uma conexão forte também com o desemprego. O modelo neoliberal se mostrou desastroso. Tivemos o desenvolvimento tecnológico, que afastou muitos empregados. Vemos o poder público com deficiências, por exemplo, na questão de ocupação territorial. É quase uma indústria de apropriação das áreas públicas disponíveis. Tudo isso tem a ver com as questões sociais.

 

Como o senhor se sente quando vê uma criança esmolando no sinal?

Rubens Naves: O poder público aqui de São Paulo vai fazer campanha para tirar as crianças da rua e me indagou se terá apoio da Abrinq. Eu disse que sim, mas fiz a ressalva: se o Estado não tiver por trás um aparato que recepcione esta criança quando ela for tirada da rua, esta campanha pode cair em descrédito. Já se este aparato estiver funcionando, nós cidadãos vamos preferir não só telefonar para um call center qualquer, mas até encaminhar. Se não tiver funcionando, que se dê esmola, que se faça o que achar necessário, é uma situação individual.

 

Fonte: Razão Social (O Globo)