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Ricos estão se conscientizando

11-07-2005 12:41

Um dos mais renomados economistas do mundo acredita que, em 20 anos, será possível eliminar a miséria na África. No entanto, diz ser necessário mais empenho por parte dos países ricos. Em entrevista exclusiva ao Correio, por telefone, de Londres, Jeffrey Sachs falou sobre a importância da cúpula do G-8 — o grupo dos sete países mais industrializados e a Rússia —, encerrada na última sexta-feira na Escócia. Autor do livro O fim da pobreza, ele explicou por que as nações desenvolvidas têm interesse em prover desenvolvimento sustentável às regiões miseráveis. Incluído pela revista Time na lista dos cem mais influentes líderes do mundo, Sachs é o conselheiro especial do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, para as metas do milênio de desenvolvimento. O economista também elogiou o Programa Fome Zero — “uma das boas inovações no combate à pobreza”.

 

CORREIO BRAZILIENSE — Qual é a solução para a pobreza? As nações ricas estão prontas para remediar os problemas dos países mais miseráveis?

JEFFREY SACHS — Eu diria que os países industrializados estão mais preparados para combater a pobreza do que há poucos meses. No entanto, ainda não estão preparados o suficiente para essa tarefa. Temos que alcançar um consenso entre os grupos ricos, para que cumpram a promessa de dar 0,7% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para os países pobres. Até agora, eles não dispuseram nem de um terço do que se comprometeram a doar. Mas estamos assistindo a uma séria mudança na Europa, no sentido de cumprir essa promessa. No entanto, os Estados Unidos — que obviamente são o país mais rico do mundo — batem o pé em relação a essa doação e centralizam seus negócios na guerra do Iraque.

 

CORREIO — Então, os Estados Unidos são o principal obstáculo para o combate à miséria?

SACHS — Bem, em termos de quantidade da assistência ao desenvolvimento, os norte-americanos têm contribuído com apenas metade do que se propuseram a financiar. É óbvio que muito deve ser feito para reduzir a pobreza, inclusive pelos próprios países pobres. Essas nações têm de rever suas estratégias e suas políticas de combate à miséria, inclusive a ajuda ao desenvolvimento. Se focarmos na ajuda ao desenvolvimento, então temos de reconhecer que os Estados Unidos são a nação que tem as maiores dívidas com os pobres.

 

CORREIO — Qual é a importância de cúpulas como a do G-8 para se traçar metas contra a desigualdade social?

SACHS — Eu acho que o governo do premiê britânico, Tony Blair, obteve sucesso na realização desta última cúpula. A própria Europa está comprometida em doar 0,7% do seu Produto Interno Bruto (PIB) para as nações africanas. Os países europeus estão aumentando sua ajuda. Sob pressão internacional, os Estados Unidos também intensificaram as ações em prol do combate à desigualdade social. O Japão aumentou consideravelmente sua assistência, mas precisa fazer muito mais. A cúpula do G-8 direciona uma maior responsabilidade dos países ricos para com os pobres. O próximo encontro será a Cúpula Mundial, em setembro, nas Nações Unidas. Será uma nova oportunidade para informar o público sobre a responsabilidade social que pesa sobre os países ricos.

 

CORREIO — Vale a pena incrementar o financiamento para países menos desenvolvidos?

SACHS — Sim, é claro que aumentar o financiamento em nações pobres é uma saída válida. É uma questão de vida ou morte. Isso é absolutamente essencial para que a África consiga se libertar da pobreza. Esse é o mais crítico desafio de desenvolvimento dos governos e de todo o planeta. Se não fizermos algo pela África, milhões e milhões de pessoas morrerão, de forma trágica e desnecessária. Elas sucumbirão a doenças, à desnutrição e à contaminação dos mananciais. Será uma crise cada vez mais profunda e cruel.

 

CORREIO — Mas que interesses países como Estados Unidos e Grã-Bretanha teriam ao ajudar as nações africanas, que se julgam esquecidas?

SACHS — Em primeiro lugar, não é verdade que o interesse financeiro é a única coisa que move as nações ricas. É forte o interesse desses países em livrar outros governos de situações de instabilidade. Eles desejam ajudar a África a sair dessa terrível instabilidade econômica e política, justamente por causa da ligação com a pobreza extrema. As nações miseráveis não apenas sofrem economicamente, como também são vulneráveis a badernas políticas, como golpes, violência e guerra civil, tornando-se abrigo de terroristas. Tudo isso é motivo para que países ricos demonstrem interesse em ajudar os africanos. As nações desenvolvidas querem preservar sua segurança, evitando instabilidade em outras regiões pobres. Além disso, a solução da pobreza acarreta prosperidade e beneficia o comércio internacional. Em 25 anos, esses países pobres poderão oferecer recursos energéticos, por exemplo, e outros produtos.

 

CORREIO — Como estão os projetos que o senhor ajudou a Organização das Nações Unidas a implantar na África?

SACHS — Os projetos mostraram claramente que a pobreza pode ser eliminada na África nos próximos 20 anos e que as metas do milênio podem ser alcançadas. Mas o continente vai necessitar de um significativo aumento na ajuda financeira para o desenvolvimento. O premiê britânico, Tony Blair, e seus colegas europeus já sinalizaram com esse auxílio.

 

CORREIO — Em relação ao Brasil, o senhor considera o Fome Zero um programa de qualidade?

SACHS — Eu acho que o Fome Zero foi uma das boas inovações no combate à pobreza. O Bolsa Família, ligado ao Fome Zero, é a principal inovação. Mas eu creio que o Brasil tem de fazer mais no desenvolvimento básico de suas comunidades. Não somente transferir dinheiro para as regiões pobres, mas também ajudar os municípios a construir infra-estrutura básica, ampliar as redes de irrigação e melhorar a produtividade agrícola. Essas ações fazem parte da estratégia de combate à pobreza. Há alguns meses, quando estive no Brasil, debati com membros do governo o desenvolvimento básico.

 

CORREIO — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs um imposto sobre o comércio de armas. O dinheiro arrecadado seria empregado no combate à fome e à pobreza. É uma boa idéia?

SACHS — Essa idéia dos presidentes Lula e Chirac (Jacques Chirac, da França) é muito boa, por três razões: reduziria a ação do crime, aumentaria o rendimento e introduziria um sistema de taxação nacional por indivíduos, que ganharia abrangência internacional. E isso representaria uma quebra de paradigmas. Gradualmente, temos de nos mover em direção a um sistema comprometido com rendimentos, que mantenha independência dos indivíduos contribuintes. O sistema obedeceria a tratados internacionais.

 

Fonte: Correio Braziliense, entrevista publicada originalmente em 10/07/2005