Relato de um Rondonista - Paulo Ribeiro
12-03-2007 10:18
*Paulo Ribeiro
Quando me preparava para viajar para o norte do Brasil, onde participaria do "Projeto Rondon" o qual estava desativado a mais de 14 anos, mesmo sem saber aonde iria, fui conversar com diversas pessoas para poder me interar do que estaria por vir dessa aventura. Conversei com profissionais liberais, professores e até mesmo com ex-rondonistas nessas conversas, a impressão que tive foi a de que iríamos nos deparar com um norte e nordeste que na sua maioria seriam de pessoas pobres, sem motivação, para não dizer preguiçosas, e talvez o pior de tudo sem qualquer ambição, pois os municípios que passaríamos eram quase em sua totalidade contempladas pelo bolsa família.
A cidade onde tive o prazer de conhecer se chama Axixá do Tocantins e esta localizada ao norte do Estado na região conhecida como Bico do Papagaio, uma região que recebe esse nome devido a confluência dos rios Araguaia e Tocantins que cortam a floresta desenhando essa figura maravilhosa na floresta de transição.
Nesse município realmente, cerca de 30% das famílias recebem algum tipo de assistência do governo federal, o chamado “assistencialismo” que na gíria popular “da o peixe mas não ensina a pescar” ou ainda serve como incentivo para que as pessoas não procurem emprego. Recentemente ouvi de um conhecido o seguinte relato, “cara esse bolsa família é uma fraude só ajuda quem não precisa, olha só o que aconteceu com o porteiro do meu prédio, ele recebe esse beneficio e acabou de pedir demissão para não perder esse dinheirinho fácil, segundo ele não poderia ter a carteira assinada”.
Mesmo sendo um defensor do programa bolsa família e dos outros existentes nunca tinha me deparado com sua real importância, pois acreditava que se tratavam de um programa emergencial que serviria “apenas” para amenizar momentaneamente a situação dos mais de 50 milhões de miseráveis existentes em nosso país.
Enganei-me, pois ao buscar multiplicadores de saúde junto à comunidade e desenvolver atividades de capacitação para os agentes comunitários de saúde deparei-me com os principais problemas de saúde publica, decorrentes da falta de saneamento básico, higiene pessoal, vestimenta e alimentação inadequados. Ao sair a campo, junto as comunidade e assentamentos mais distantes constatei o que a maioria das pessoas desconhece, pude observar que os benefícios concedidos pelo governo federal podem sim colaborar na diminuição da miséria mais a constatação mais importante foi que esse dinheiro impede que condenemos mais uma geração de brasileiros, pois as famílias que recebem esses benefícios mantêm seus filhos longe de doenças do terceiro mundo, pois mantêm suas carteiras de vacinação em dia, garantem que seus filhos estudem e são cobradas mensalmente que seus filhos estejam dentro do peso adequado. Essa constatação foi feita após varias dinâmicas junto a população para que então pudéssemos avaliar a real situação do município e assim tentar junto com a comunidade achar uma solução para seus problemas, entretanto chegamos a conclusão que o enorme foco de desnutrição infantil, diarréia, anemia, evasão escolar acometiam principalmente as famílias de baixa renda, aquelas que encontram-se à margem da sociedade sobrevivendo do extrativismo do coco de babaçu – e que ora não estão recebendo nenhum auxilio do governo federal.
Aprendi em minha viagem para o norte do Tocantins, na cidade de Axixá que o Bolsa família é muito mais que um programa assistencial é sim, uma ação para não condenarmos milhares de brasileiros a desnutrição, ao analfabetismo, à evasão escolar, à exploração do trabalho infantil e aquelas doenças já há muito esquecidas por nós. Temos sim é que amplia-lo para podermos ao menos garantir que nossas crianças cresçam saudáveis – embora nessas condições nunca terão as mesmas oportunidades que nós.
*Paulo Ribeiro é estudante de Medicina da Unisul