Educação e desenvolvimento - Patrus Ananias
* Patrus Ananias
A educação, como tudo na vida individual e coletiva, pressupõe uma base filosófica que estabeleça princípios e diretrizes
Há um consenso quanto ao lugar fundamental da educação no processo de desenvolvimento e emancipação das pessoas e das nações. Mas quando falamos de qualidade, conteúdos e desenhos das políticas públicas para o setor, o consenso inicial sofre as primeiras clivagens.
Tivemos nas últimas décadas no Brasil importantes avanços no campo educacional que nos levaram à universalização do ensino básico, resultado da defesa de uma escola pública e democrática que se formou a partir desse entendimento consensual elementar. Temos agora, entre outros, o desafio de melhorar a qualidade da educação fundamental e de estendê-la ao ensino médio e à educação infantil.
Na minha opinião, devemos partir também para uma releitura do conceito da educação, nas acepções por meio das quais seja possível exercer, em plenitude, suas possibilidades transformadoras. Penso que aí temos um dos grandes saltos de qualidade na área.
A educação, como tudo na vida individual e coletiva, pressupõe uma base filosófica que estabeleça princípios e diretrizes. Entre os extremos do individualismo e da coletivização compulsória, perfilo-me, como tenho reafirmado, na linha do personalismo-comunitário, que procura integrar, em novas sínteses, os direitos e garantias individuais, as liberdades públicas, com os direitos sociais, econômicos, culturais e ambientais, articulando ainda, numa perspectiva mais ampla, os direitos das nações e dos povos.
No enfoque desse processo educacional que transcende o indivíduo e se contextualiza na perspectiva mais ampla do projeto nacional, nos perguntamos: Como integrar escola, família e comunidade, possibilitando a disseminação do conhecimento e da cultura, um processo constante de educação cívica, de reflexão mais elaborada sobre o sentido maior da vida, das relações humanas e o que queremos para o nosso país? Dentro desse objetivo de uma sociedade mais afeita ao exercício metódico da inteligência e do saber compartilhados, penso que devemos vincular a educação a um código de valores que possibilite a convivência humana em bases éticas superiores.
Uma concepção educacional comprometida com o bem comum e com uma vida melhor para a nossa e as futuras gerações não pode prescindir de confrontar os grandes temas que se põem à condição humana na sua frágil andança sobre a Terra: a liberdade em face da responsabilidade social, a solidariedade, a justiça, a construção da paz, o amor. Para trabalhar essas questões e tantas outras correlatas ou confrontantes, precisamos trazer as indagações e reflexões filosóficas aos primeiros anos da formação escolar.
Outra prioridade é a ênfase no ensino da língua pátria. A nossa língua é o português, mas enriquecido com os signos, os registros e a melodia próprios do povo brasileiro. Precisamos construir os necessários parâmetros gramaticais que assegurem a unidade e a expansão articulada da linguagem sem reprimir a elasticidade vocabular, comunicativa e cultural da nossa gente. E as duas outras disciplinas que me parecem essenciais à construção da consciência nacional desde a infância são a história e a geografia. Os povos que se afirmaram historicamente jamais desprezaram o seu passado e o seu território.
Essa formação humanística não se contrapõe ao conhecimento científico mais rigoroso vinculado às pesquisas e descobertas nos diversos campos da engenharia, da medicina, da física, da química, da informática, da biologia. As tecnologias mais avançadas devem estar a serviço da vida e da emancipação do nosso povo e, por isso, formação humanística e técnica devem trabalhar integradas dentro do objetivo do ideal transformador de educação. Sob esse princípio é importante observar a retomada, agora, das escolas técnicas profissionalizantes de ensino médio com um ensino de qualidade que integre as duas dimensões. Essas escolas têm a proposta de garantir qualificação profissional com formação humanística boa, criando condições de acesso ao mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que preparam para a universidade.
A escola é um espaço insubstituível na elaboração e na partilha do conhecimento, mas não deve ser segmentada da vida social. Como defendia Florestan Fernandes, deve conhecer e valorizar as raízes da formação das pessoas e das comunidades adquiridas no mundo da vida. Na busca dessa práxis, poderemos encontrar o caminho pelo qual o nosso país encontre o seu destino e nosso povo se ponha de pé. Um caminho que nos permita exercitar e desenvolver as nossas grandes dimensões humanas: a capacidade de pensar e de amar.
(*) Patrus Ananias é ministro do Desenvolvimento Social.
Artigo originalmente publicado no jornal Estado de Minas em 06/07/06.