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Democracia em construção - Patrus Ananias

29-09-2006 11:40

* Patrus Ananias

Qual é a distinção entre o santo e o fariseu? Dom Hélder Câmara costumava dizer que o santo é exigente consigo mesmo e tolerante com os outros, enquanto o fariseu é tolerante consigo e muito exigente com os outros. Lucas, o evangelista, dá também o respaldo para o combate à hipocrisia: “E por que atentas no cisco que está no olho de teu irmão e não reparas na viga que está no teu próprio olho? [...] tira primeiro a viga do teu olho, e então verás bem para tirar o cisco que está no olho de teu irmão”. Não desejamos construir uma sociedade só de santos, muito menos só de fariseus. O objetivo é encontrar o equilíbrio na construção da sociabilidade, da cidadania, do civismo, de modo que nossa capacidade de avaliação do outro seja proporcional à de promover auto-avaliação.

Domingo, vamos às urnas, e as eleições são momentos importantes para amadurecimento e desenvolvimento desse dever cívico de pensar o país com a medida da razoabilidade. A contar do golpe de 1964, teremos a quinta eleição consecutiva sem interrupção da ordem institucional, configurando o mais extenso período democrático do país. É um período que não está imune a erros, como já tivemos e estamos tendo a oportunidade de constatar, o que não nos dispensa do dever de fazer um vigoroso julgamento e aplicar as punições legais. Mas, ao mesmo tempo, o cumprimento dessa tarefa não pode obstar a visão de conjunto. Na contramão desse esforço, uma espécie de cultura ciclotímica promove oscilações nos sentimentos do povo brasileiro. Temos sido vítimas de uma tendência de passar da euforia à quase depressão, à mercê das ondas provocadas pelos acontecimentos. Isso nos faz perder a possibilidade de pensar serenamente diante dos fatos que nos desafiam.

Numa perspectiva histórica, estamos diante de uma avaliação bastante positiva do processo político brasileiro. É de Winston Churchill a célebre frase que alerta para as imperfeições do modelo democrático: “A democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos". O sistema não é perfeito, e a medida disso é a consciência de que a política é resultado da própria sociedade. A dificuldade que enfrentamos na vida política encontra paralelo na crise de valores de um mundo cada vez mais desprovido de ética e dos mais nobres sentimentos de solidariedade e respeito pela vida.

A história nos confere os elementos necessários para avaliarmos que no Brasil destacam-se importantes avanços nos campos político, ético, social, econômico e cultural, conquistados mais pela mobilização do seu povo do que pela consciência das elites. Não obstante o caráter excludente e elitista da organização social, econômica e política brasileira que remonta aos tempos coloniais, passando pelo Império e pela República Velha, o povo vem evoluindo, ainda que sofridamente. Uma evolução que incide no processo eleitoral e nas conquistas sociais. Até a República Velha, praticamente não havia justiça eleitoral e prevalecia o controle exercido pelas oligarquias que dominavam a política nos estados, como era o caso do Partido Republicano Mineiro (PRM) em Minas. A revolução de 1930, com todas as suas limitações, é um marco político, com o voto feminino, e também social, com as conquistas trabalhistas. Esses avanços, ao longo da história, foram comprometidos por períodos de autoritarismo, como tivemos no Estado Novo e no período posterior ao golpe de 1964. Mas isso também é derrotado politicamente pela mobilização democrática do povo. Nesse processo de construção cotidiana de direitos políticos, sociais e eleitorais dos brasileiros se enquadra a universalização do voto, representando um passo importante no sentido de alcançar a democratização mais plena da sociedade e do Estado brasileiros.

Nos versos de Murilo Mendes, ao falar das “velozes hélices do mal” emcontraponto às “lentas sandálias do bem”, vamos encontrar a síntese dos desafios presentes em nossa tarefa de prosseguir na construção da democracia. No limite da história, prevalecem as “sandálias do bem”, como ensinam, nas trilhas de Jesus, os grandes caminhantes da história brasileira, de Tiradentes a marechal Rondon, passando por todos os anônimos, em busca de uma vida mais digna e de mais justiça social. Dia 1º, vamos votar a favor do futuro, com confiança, pois, mais uma vez, será mais um importante momento na busca do encontro do Brasil consigo mesmo.


* Patrus Ananias é ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS)


Publicado: Estado de Minas - MG 28/09/06